domingo, 28 de junho de 2015

A faixa

O sinal verde para os pedestres.
Dez segundos para atravessar a rua.
Caminho tranquilamente, enquanto as motos urram em acintosa intimidação.
Despreocupada, enquanto ando, admiro a paisagem de concreto, aço e fumaça.
E, não mais que de repente, sinto-me arrastada pelo braço por um marmanjo malcheiroso.
— Assim, vovó, vai morrer atropelada.
Quase destronco meu frágil tornozelo de sessenta e nove anos ao ser conduzida até a calçada.
— Não tenho filhos, meu rapaz — falo, mal-humorada. — Consequentemente, não posso ter netos.
Ele sorri.
— E, da próxima vez — digo-lhe, — espere que lhe peçam ajuda antes de puxar alguém assim pelo braço.
— Velha ingrata!
— Cidadão generoso!
— Vai pro inferno!
— Depois de você!

Odete.

sábado, 20 de junho de 2015

O boicote

Ontem, foi a exposição das fotos que tirei há dez anos no Cazaquistão.
A mídia decidiu boicotá-la quando lhe revelei que meu namorado, o Fred , tem dezessete anos.
Todos os jornais boca do lixo e arautos da elite estão me chamando de “velha pedófila”.
Já lhes expliquei que nosso namoro é consensual e que a família do Fred não se opõe.
Nossa história de amor começou há dois meses, quando eu tirava fotos no Central Park.
Amor à primeira vista.
Fazemos uma boa dupla. Afinal, ele é protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente; e eu, pelo Estatuto do Idoso.
— Fred , às vezes você não se sente assim como um mico-leão-dourado?
Fred sorriu, significativamente. Ele não é muito de falar.

Odete.

domingo, 14 de junho de 2015

O ônibus

Dou o sinal. E, pra isso, uso minha bengala.
O ônibus para. Não por mim; mas pelo jovem musculoso que está ao meu lado.
Ele entra antes de mim.
Antes de subir, encaro o motorista, que me olha com ódio.
Exagero em minha lentidão, só pra mostrar-lhe quem é que manda.
Assim que estou dentro, o filho da puta arranca, vingativo. Sinto meu corpo desfazer-se em ossos, carne, nervos e rugas.
Tento rodar a roleta, que me parece dura demais.
O cobrador me olha, com desprezo e impaciência.
Uma moça gentil me ajuda a empurrar a roleta.
Há quatro bancos reservados a idosos, todos ocupados... por não idosos.
Espero; mas ninguém parece perceber minha presença.
O jovem musculoso do ponto ocupou um dos lugares reservados.
“Por que não?”, penso.
E sento-me em seu colo, com um sorriso perverso nos lábios.
— A velha é louca! — diz uma voz masculina que vem lá do fundo do ônibus.
Só sendo louca pra sobreviver em um país assim.
                            
Odete.