domingo, 14 de junho de 2015

O ônibus

Dou o sinal. E, pra isso, uso minha bengala.
O ônibus para. Não por mim; mas pelo jovem musculoso que está ao meu lado.
Ele entra antes de mim.
Antes de subir, encaro o motorista, que me olha com ódio.
Exagero em minha lentidão, só pra mostrar-lhe quem é que manda.
Assim que estou dentro, o filho da puta arranca, vingativo. Sinto meu corpo desfazer-se em ossos, carne, nervos e rugas.
Tento rodar a roleta, que me parece dura demais.
O cobrador me olha, com desprezo e impaciência.
Uma moça gentil me ajuda a empurrar a roleta.
Há quatro bancos reservados a idosos, todos ocupados... por não idosos.
Espero; mas ninguém parece perceber minha presença.
O jovem musculoso do ponto ocupou um dos lugares reservados.
“Por que não?”, penso.
E sento-me em seu colo, com um sorriso perverso nos lábios.
— A velha é louca! — diz uma voz masculina que vem lá do fundo do ônibus.
Só sendo louca pra sobreviver em um país assim.
                            
Odete.

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