sábado, 31 de dezembro de 2016

O Buraco do Troy

Se quer beber um típico rabo de galo, tem que ir no Buraco do Troy. É um bar na periferia de São Paulo.
Ali se reúnem universitários loucos pra discutir política, fumar maconha e planejar umas orgias.
Os caras me respeitam pra cacete.
— Cara, você é assim de outro mundo, Odete — disse a Laura, estudante de Filosofia. — Puta que pariu! Você é gente como a gente.
Nesse dia, o Caio ficou tão bêbado que ameaçou todo mundo com um isqueiro aceso.
— Eu queimo todo mundo se o Troy não aparecer! Cadê o Troy, gente? Eu vou beijar o Troy na boca!
O fogo do isqueiro queimou o dedo dele, e o Caio chorou feito um bebê.
— Meu bem — eu lhe disse, — não tem nenhum Troy, baby, é só o nome do bar.
— Eu queria agradecer ao Troy, Odete. O Troy é um pai pra mim.
O Caio é foda.

Odete.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Lembranças

Tirei umas fotos na minha antiga universidade. E, inevitavelmente, vieram as lembranças.
— A ciência é humilde, Odete, a ciência é humilde.
Como se fosse um sussurro vindo do passado, ouvi claramente a voz do meu professor e amante.
Eu ali tão jovem, nua em seu gabinete, ele cinquentão e viril, apesar de um tanto melancólico.
— A religião é arrogante, Odete, a religião é arrogante.
Tudo que ele dizia, eu bebia como água necessária, líquido vital.
— A ciência erra em busca da verdade, reconhece seu erro, refaz o seu caminho e segue em frente. Mas a religião, Odete, a religião tem uma verdade que não admite questionamento.
Ele era ateu, e eu indecisa.
— Então me diga, Odete, quem é mais arrogante, um padre ou um cientista?
Eu apenas sorria, apaixonada e tola, jovem e tola.


Odete.

To be or not to be, eis a questão

Estava num bar de “sapas”, e eis que encontro minha colega de quarto dos tempos da faculdade. Verónika com K e acento agudo no O. Resolvemos matar a saudade, lembrar os velhos tempos.
Depois do sexo, no apartamento dela, Verónika estava fumando um cigarro, nua e flácida, no sofá da sala, enquanto falava do tempo em que vivera nos Estados Unidos.
— Aqui, Odete, “gay” é substantivo, lá é adjetivo. Aqui, as pessoas dizem “aquele gay” ou “aquela lésbica”. Lá, “aquele homem gay” ou “aquela mulher lésbica”.
— Não tinha pensado nisso, Verónika.
— Aqui, o indivíduo se resume a uma característica, ser gay ou lésbica. Lá, ou você é homem ou é mulher, e pode ter uma característica, que é ser gay ou lésbica.
— Verdade, aqui no Brasil, gay e lésbica é como se fosse um terceiro sexo. Você é homem, mulher ou um terceiro sexo, ou seja, gay ou lésbica.
— E nem pode “estar” gay ou lésbica, ou é ou não é.
Verónika sempre foi sagaz.
— Como uma mulher lésbica e feminista, eu odeio essa visão limitada que tem o povo brasileiro — ela concluiu.
Sorri e dei uma tragada no cigarro de Verónika.


Odete.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Abaixo o fascismo!

Eu e meu namorado comunista resolvemos protestar contra o governo vigente, de cunho fascista. Ficamos nuzinhos e saímos de mãos dadas, caminhamos pelo calçadão da praia de Copacabana. Eu tinha uma camélia vermelha em meus cabelos azuis, e ele amarrou um lacinho de fita vermelha em seu pau sexagenário.
Chocadas, umas velhas fascistas nos ofenderam verbalmente. Mas alguns jovens aplaudiam, enquanto outros riam de nossa nudez. Umas mocinhas fizeram cara de nojo diante de nossa velhice exposta e feia.
Não demorou muito, a polícia apareceu. "Toda nudez será castigada", já dizia Nelson Rodrigues. Na delegacia de polícia, fomos ridicularizados por policiais sem nenhum profissionalismo. Até que dei meu telefonema e acionei meus contatos na mídia. A imprensa apareceu, e os policiais fecharam a cara.
— As pessoas têm vergonha do corpo; mas não têm vergonha na cara! A nudez é castigada; mas a hipocrisia não! Abaixo o fascismo!


Odete.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Filosófica...

Hoje estou filosófica. 
Acordei pela manhã, e o sol entrava sem cerimônia pela janela do quarto.
Vi a projeção da sombra da garrafa de uísque que estava sobre o chão. 
Então pensei: "Por que existe a sombra?".
Quero dizer, a natureza preocupou-se em fazer os objetos projetarem sombras para nos protegerem da inclemência solar? Ou há outro motivo para existirem sombras?
Acordei o Laerte, meu namorado, estudante de Filosofia recém-ingressado na universidade.
— Laerte, pra que existe sombra?
Ele simplesmente me ignorou e voltou a dormir.
Disso tudo, cheguei à seguinte conclusão. Meu próximo namorado deve ser um estudante de Física.

Odete.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Me apaixonei por um coxinha

Tudo aconteceu no confronto de domingo passado.
De um lado, eu e minha turma vermelha. Do outro, ele e sua turma verde-amarela, que acha que as matas e o ouro pertencem somente a ela e esquece o sangue que foi derramado na história do Brasil.
Não sou muito adepta da terceira idade e nunca menti sobre isso. Mas ele tinha uns cabelos brancos tão revoltosos, um nariz tão grande e, além disso, suado sob o sol tropical, tirou a camisa amarela, com aquelas mãos gigantes, e fiquei louca com aqueles cabelos brancos que lhe cobriam o peito.
Eu estava com os meus cabelos encaracolados, pintados de vermelho, muito proeminentes, num estilo black power. E quem disse que brancos também não podem tê-los?
Então percebi que ele estava hipnotizado com os meus cabelos, enquanto eu desejava louca enfiar as unhas no seu peito peludo.
Acabamos em uma cama, com lençóis brancos, em paz. Pois na horizontal, como já disse alguém, todo mundo é igual. Acabam-se as rivalidades políticas e restam apenas o delírio e o prazer.

Odete.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O casal

      Eu estava no ponto de ônibus e, enquanto esperava, batia um papo, no smartphone, com os integrantes do grupo de WhatsApp “Surubinha no quintal”.
Um casal de velhos passou por mim. A mulher olhou-me com profundo desprezo, aprendido desde o berço por mulheres da tradicional família brasileira. Ela devia estar incomodada com minha minissaia e meu batom preto.
Quando o ônibus chegou, a defensora da moral e dos bons costumes, toda protetora, fez o marido, um velho bem “detonado”, entrar antes dela. Não, não se sentia ameaçada por mim. Protegia-o porque ele era frágil.
Então comecei a pensar em como a vida é curiosa.
Na juventude, os homens são os protetores; pois o instinto sexual faz o macho proteger a fêmea, sua posse. Porém, nos relacionamentos heterossexuais duradouros, a mulher rejeita a fragilidade e passa a proteger o homem.
É que a fêmea transforma-se em mãe. 
     
Odete.